História verídica: Os delírios do Dr. Antonio Goyeneche, o eterno presidente da névoa na Colômbia.
Será possível que o candidato presidencial mais excêntrico da história colombiana fosse, na realidade, a única pessoa sã em um país devastado pela violência? Mergulhamos na névoa da Bogotá de meados do século XX para desenterrar a fascinante e dolorosa biografia do eterno candidato Gabriel Antonio Goyeneche. Em uma jornada pelo centro histórico da capital, pela Universidade Nacional e por San Victorino, reconstruímos a vida de um intelectual provinciano cuja mente foi fragmentada pela gripe espanhola de 1918. Suas propostas — ridicularizadas pelas elites da época — escondiam uma lógica científica peculiar e um altruísmo profundamente comovente. De telhados improvisados em Bogotá a estradas que só funcionavam ladeira abaixo, a história de Goyeneche não é uma piada do folclore eleitoral; é um espelho incômodo e poético de uma nação que não consegue encontrar a saída de seus labirintos históricos. Nascido em Socha, Boyacá, em 1886, Antonio Goyeneche não era um homem ignorante. Sua juventude foi marcada pela erudição, um respeito místico pela lei, uma memória prodigiosa e uma profunda devoção ao positivismo científico e à figura de Simón Bolívar. Mas, em outubro de 1918, uma gripe devastadora atacou seu sistema nervoso central, deixando-o com graves sequelas neuropsiquiátricas. Ao levantar-se da cama, sua mente evocava um delírio megalomaníaco para se proteger do horror e da impotência do mundo real. A partir de então, vestido com um terno esfarrapado e carregando uma pasta amarrada com barbante, Goyeneche abraçou a política como uma terapia para a dignidade. Ele obstinadamente registrou sua candidatura à presidência e proferiu discursos magistrais em praças ou nos corredores da Universidade Nacional, onde os estudantes o acolheram e lhe ofereceram comida em troca de lições de alta política. Sua trágica descida ao inferno da miséria começou quando foi expulso do campus universitário. Passou noites trêmulas em entradas de prédios coloniais, envolto nos mesmos jornais que anunciavam os banquetes de políticos sensatos. O fim chegou em fevereiro de 1978: aos 92 anos, ele foi atropelado por um táxi no centro de Bogotá. Seus decretos em papel ficaram espalhados pelo asfalto. Morreu alguns dias depois no Hospital La Hortúa, vítima de um paradoxo dilacerante: o homem que prometeu palácios para mães e o fim da pobreza morreu de desnutrição crônica causada pela fome.