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O Japão corrobora que, na guerra tecnológica, não proteger a informação fortalece o adversário

Por Luis Alberto Villamarin Pulido
O Japão corrobora que, na guerra tecnológica, não proteger a informação fortalece o adversário
O Japão corrobora que, na guerra tecnológica, não proteger a informação fortalece o adversário

    Durante mais de cinco décadas, o Japão construiu uma das economias tecnológicas mais sofisticadas do planeta, enquanto mantinha uma estrutura de inteligência condicionada pelos traumas políticos e jurídicos do pós-guerra. Essa combinação produziu um paradoxo estratégico extraordinário, materializado em uma nação capaz de desenvolver máquinas-ferramentas de precisão, semicondutores, sistemas eletrônicos, componentes industriais e tecnologias de uso dual de enorme valor militar, mas com instrumentos relativamente limitados para detectar, neutralizar e responsabilizar aqueles que tentassem apropriar-se clandestinamente desse conhecimento.

     A Rússia soube explorar essa vulnerabilidade.

     O recente caso descoberto pela polícia de Tóquio, no qual um antigo funcionário da representação comercial russa é acusado de pertencer a uma estrutura vinculada ao Serviço de Inteligência Exterior da Rússia — SVR — e de ter obtido informações empresariais sensíveis por meio de contatos clandestinos, não deve ser interpretado como um episódio policial isolado. Ele revela algo muito mais profundo, porque na competição geopolítica do século XXI, a tecnologia constitui um campo de batalha e a inteligência é o instrumento que permite identificar, penetrar e explorar as vulnerabilidades do adversário.

     O caso japonês adquire uma dimensão ainda maior quando confrontado com investigações que descrevem a atividade de organismos russos dedicados à obtenção de tecnologias de uso dual — civil e militar —, corroborada por reconstruções jornalísticas de uma operação de inteligência militar russa em Tóquio destinada à busca de máquinas, componentes eletrônicos e outros produtos necessários para sustentar a indústria bélica de Moscou.

     A conclusão estratégica a esse respeito é contundente: uma potência tecnológica sem um serviço de contrainteligência proporcional às suas capacidades científicas, industriais e comerciais acaba transformando sua própria superioridade tecnológica em uma oportunidade para seus adversários.

     Japão: potência tecnológica, vulnerabilidade estratégica

      O Japão ocupa uma posição geoestratégica excepcional no Indo-Pacífico. Está situado diante da China, próximo da Rússia e da Coreia do Norte, e inserido no principal cenário de competição estratégica entre os Estados Unidos e as potências revisionistas da Eurásia.

      Sua posição geográfica, combinada com sua capacidade industrial e tecnológica, transforma-o simultaneamente em alvo e plataforma de inteligência para os principais adversários geopolíticos dos Estados Unidos. Isso ocorre porque a proximidade geográfica do Japão com China, Rússia e Coreia do Norte lhe proporciona uma posição privilegiada para obter informações de interesse estratégico para seus aliados ocidentais.

      Entretanto, paradoxalmente, durante décadas essa vantagem conviveu com uma arquitetura de inteligência relativamente limitada. As restrições políticas e jurídicas herdadas do pós-guerra limitaram o desenvolvimento de capacidades clandestinas, particularmente nos campos da inteligência externa e da contraespionagem. O Japão sequer dispunha de um serviço de inteligência exterior equivalente aos existentes em outras grandes potências.

     O resultado foi uma assimetria perigosa: o Japão desenvolvia tecnologias de enorme valor estratégico, enquanto seus adversários desenvolviam métodos cada vez mais sofisticados para obtê-las.

      A Rússia compreendeu rapidamente essa equação.

      A espionagem russa não precisa necessariamente penetrar em uma instalação militar japonesa nem subtrair fisicamente uma arma. Pode ser muito mais rentável identificar uma empresa que fabrica uma máquina-ferramenta, localizar um funcionário que possua informações relevantes, estabelecer uma relação pessoal, obter catálogos, manuais, informações comerciais ou conhecimentos sobre processos industriais e, posteriormente, utilizar intermediários para conseguir produtos de uso dual, apropriar-se de tecnologia ou obter a colaboração consciente ou inconsciente de indivíduos em troca de dinheiro.

      Foi precisamente isso que ocorreu no caso investigado pela polícia de Tóquio.

      O agente de inteligência russo teria adotado uma identidade falsa para aproximar-se de um trabalhador japonês de uma empresa de máquinas-ferramentas. Durante encontros cuidadosamente manipulados, o funcionário japonês teria recebido refeições, entretenimento e dinheiro em troca de informações.

     A sofisticação da operação não esteve na espetacularidade, mas na discrição.

     Os dois homens comunicavam-se verbalmente e evitavam chamadas telefônicas ou mensagens de correio eletrônico. Essa metodologia reduz a pegada digital ou documental e dificulta a reconstrução posterior da operação.

     O caso demonstra que a espionagem contemporânea nem sempre se parece com os filmes de agentes secretos. Ela pode desenvolver-se em restaurantes, escritórios, empresas privadas e cadeias logísticas.

      A Rússia construiu uma cultura de inteligência de longo alcance

      Aqui aparece uma das características que ajudam a explicar a resiliência estratégica russa.

      A Rússia enfrenta enormes limitações e contradições em seu desempenho militar convencional. A guerra na Ucrânia demonstrou que suas Forças Armadas não são a máquina invencível que alguns imaginavam antes de 2022.

     Suas dificuldades para obter uma vitória rápida, suas enormes perdas e a prolongação do conflito expuseram graves problemas doutrinários, logísticos, de comando e de condução operacional.

     Entretanto, seria um erro transferir diretamente essas deficiências para o campo da inteligência.

     A capacidade militar convencional e a capacidade de inteligência são dimensões diferentes do poder nacional.

     A Rússia conserva uma tradição extraordinariamente desenvolvida em inteligência estratégica, penetração clandestina, espionagem industrial, operações de influência, utilização de coberturas diplomáticas e exploração de redes comerciais.

     A isso acrescenta dois fatores de enorme importância: seu arsenal nuclear e suas capacidades de mísseis.

    Sem dúvida, essa combinação explica grande parte das precauções com que as demais potências lidam com Moscou. A Rússia pode enfrentar dificuldades para conquistar grandes extensões territoriais mediante forças convencionais e, simultaneamente, conservar instrumentos capazes de produzir efeitos estratégicos desproporcionais.

    Portanto, o poder russo não pode ser medido exclusivamente pela capacidade de suas tropas de avançar no terreno.

     Deve ser analisado como uma combinação de armas nucleares, mísseis, inteligência estratégica, guerra eletrônica, operações cibernéticas, espionagem, influência política, sabotagem, diplomacia e redes econômicas.

     No caso japonês, a dimensão tecnológica é especialmente reveladora.

      Segundo a investigação jornalística em curso, altos funcionários ucranianos teriam apresentado a Tóquio evidências de componentes japoneses encontrados em armas russas desmontadas e submetidas à análise forense, além de terem alertado sobre mecanismos de reexportação por meio de terceiros países.

     Isso não significa que as empresas japonesas tenham colaborado deliberadamente com a Rússia. O próprio material indica que não havia evidências de que empresas como Panasonic, Toshiba ou Nippon Electric Corporation tivessem vendido conscientemente seus produtos à Rússia.

     O problema estava nas cadeias de intermediação e reexportação.

     E precisamente aí está a lição.

     A guerra tecnológica não termina na fronteira

     Na economia globalizada, uma sanção comercial pode ser insuficiente se não houver inteligência capaz de identificar rotas alternativas.

     Um componente pode sair legalmente do Japão em direção a um terceiro país e posteriormente chegar à Rússia. Uma máquina pode ser adquirida por meio de uma empresa intermediária que faça parte de uma estrutura destinada a camuflar as atividades dos serviços de inteligência russos. Uma tecnologia pode ser obtida por meio de um funcionário. Uma informação científica pode ser extraída de uma universidade. Um conhecimento industrial pode escapar inadvertidamente durante uma conversa aparentemente inocente.

     Por isso, a inteligência moderna deve deixar de ser concebida exclusivamente como uma atividade orientada à descoberta de planos militares.

     Deve observar todo o ecossistema do poder adversário.

      Uma inteligência estratégica eficaz deve estudar suas capacidades militares, mas também suas indústrias; seus cientistas, mas também suas empresas; suas armas, mas também suas cadeias logísticas; seus diplomatas, mas também seus comerciantes; suas instituições oficiais, mas também seus intermediários privados.

      A Rússia está demonstrando isso no Japão.

      O objetivo não é simplesmente roubar um segredo.

      O objetivo é construir conhecimento acumulativo sobre as capacidades tecnológicas do adversário e encontrar os mecanismos para converter esse conhecimento em vantagem estratégica sustentada ao longo do tempo, à medida que o país espionado avança em seus processos de atualização tecnológica.

      Por isso, os projetos de inteligência verdadeiramente importantes não podem ser concebidos exclusivamente com base em objetivos de curto prazo.

      A inteligência necessita de paciência estratégica

      Uma das maiores lições do caso russo é que as operações de inteligência podem precisar de anos para produzir resultados.

       A inteligência não funciona necessariamente por meio de ações espetaculares. Pode consistir em estabelecer uma relação aparentemente insignificante, cultivar uma fonte, estudar uma empresa, identificar uma vulnerabilidade, compreender uma cadeia de suprimentos e esperar o momento adequado para explorá-la.

      O caso japonês demonstra essa lógica de aproximação gradual. O habilidoso agente russo teria estabelecido contato pouco depois de chegar ao país e posteriormente desenvolvido uma relação contínua com o trabalhador da empresa.

      Isso obriga a pensar a contrainteligência em termos igualmente prolongados.

      Não basta descobrir o espião quando ele já obteve a informação.

      É necessário detectar as condições que tornaram possível que ele chegasse até ela.

       A contrainteligência deve, portanto, antecipar padrões: quais setores industriais são vulneráveis; quais tecnologias interessam ao adversário; quais empresas participam de determinadas cadeias produtivas; quais indivíduos podem ser alvos de recrutamento; quais terceiros países funcionam como plataformas de reexportação; e quais organizações estrangeiras podem servir como estruturas de cobertura.

       É uma atividade permanente.

      O dilema japonês: o choque ético e político entre segurança e liberdade

      O Japão está tentando corrigir essa vulnerabilidade.

      Por necessidade evidente, Tóquio iniciou uma reforma estrutural que contempla um Conselho Nacional de Inteligência e um Escritório Nacional de Inteligência como centros de coordenação, acompanhados por legislação contra a espionagem e, posteriormente, pela criação de capacidades mais completas de inteligência externa.

     A mudança é transcendental porque implica modificar uma cultura institucional que, durante décadas, mostrou-se reticente em conceder poderes especiais ao Estado em matéria de segurança.

     Existe, entretanto, um limite fundamental, particularmente evidente antes e durante a Segunda Guerra Mundial, quando o militarismo japonês representou uma grave ameaça à segurança internacional: a contrainteligência não pode transformar-se em uma justificativa para destruir as liberdades que pretende defender.

      Esse é o verdadeiro desafio.

      Qualquer legislação contra a espionagem e a influência estrangeira deverá equilibrar segurança nacional, privacidade, neutralidade política e mecanismos eficazes de supervisão democrática.

     A verdadeira força de uma democracia não consiste em não possuir serviços de inteligência.

      Consiste em dispor de serviços de inteligência profissionais, eficazes e submetidos a controles institucionais.

       Toda embaixada deve ser considerada uma potencial plataforma de inteligência

       A história demonstra que as representações diplomáticas têm sido utilizadas pelas potências para desenvolver atividades de inteligência sob cobertura oficial. A Rússia possui uma longa tradição nesse campo.

      Por isso, sob uma perspectiva de segurança nacional, uma embaixada russa não deve ser observada apenas como uma representação diplomática.

      Ela também deve ser analisada como uma potencial plataforma de inteligência, sem que isso implique afirmar que todo diplomata russo seja um espião.

      A distinção é fundamental.

      O problema não é a diplomacia; o problema é a utilização de estruturas diplomáticas, comerciais, culturais ou empresariais como coberturas para atividades clandestinas.

      O caso do Japão demonstra, além disso, que as estruturas de cobertura podem estender-se muito além de uma embaixada: a utilização de empresas como a Aeroflot como cobertura para atividades de inteligência russa e o emprego de companhias logísticas e rotas indiretas para movimentar mercadorias.

     É precisamente por isso que a contrainteligência moderna deve adotar uma visão integral.

     Conclusões de geopolítica e inteligência estratégica

     1. A superioridade tecnológica sem contrainteligência é uma vulnerabilidade estratégica.

Se não proteger adequadamente suas informações e cadeias de suprimentos, qualquer Estado pode dispor de universidades, indústrias e empresas extraordinariamente avançadas e, ainda assim, transformar esse patrimônio em uma fonte de poder para seus adversários.

      2. A Rússia demonstra que o poder nacional não pode ser medido apenas pelo desempenho militar convencional.

      As dificuldades russas no campo de batalha ucraniano não eliminam suas capacidades de inteligência estratégica, armas nucleares, indústria de mísseis, capacidades cibernéticas e operações de influência por meio de infiltração e sabotagem.

Portanto, em nome da segurança multidimensional, o adversário deve ser avaliado integralmente, e não apenas por seus êxitos ou fracassos no terreno.

     3. A inteligência estratégica deve estudar o sistema completo do adversário.

Forças armadas, indústria, ciência, tecnologia, comércio, finanças, logística, comunicações, diplomacia e redes empresariais formam um único ecossistema de poder.

Ignorar qualquer um desses componentes gera pontos cegos e distorce as avaliações de liderança multidimensional e segurança multidimensional.

     4. A inteligência estratégica é um investimento de longo prazo.

As operações de espionagem podem começar anos antes de produzir um resultado estratégico visível. Por isso, a contrainteligência também deve pensar em décadas, preservar a memória institucional e estudar padrões cumulativos.

      5. A guerra tecnológica transforma as empresas em atores da segurança nacional.

      A proteção de uma máquina-ferramenta, de um semicondutor, de um software, de um processo industrial ou de uma cadeia logística já não é exclusivamente uma questão empresarial. Em determinadas circunstâncias, pode constituir uma questão de segurança e defesa nacional.

O Japão está aprendendo essa lição sob pressão.

Seu extraordinário desenvolvimento tecnológico transformou-o em um alvo altamente desejável. Sua posição geográfica fez dele uma plataforma privilegiada. Suas restrições históricas no campo da inteligência facilitaram determinadas vulnerabilidades. E a Rússia, com uma tradição de inteligência profundamente arraigada, soube explorá-las.

     A lição transcende o Japão e a Rússia.

     No século XXI, o país que domina a tecnologia, mas não domina a proteção de seu conhecimento, pode acabar armando indiretamente seu próprio adversário.

      Essa é a verdadeira dimensão estratégica do caso japonês, porque a guerra contemporânea não é travada apenas com tanques, mísseis ou aviões.

      Ela também é travada em laboratórios, universidades, empresas, portos, escritórios, bases de dados, cadeias de suprimentos e conversas aparentemente insignificantes.

      E, nesse cenário silencioso, a inteligência e a contrainteligência podem ser tão decisivas quanto as armas que finalmente chegam ao campo de batalha.

  Sobre o autor:

     O tenente-coronel Luis Alberto Villamarín Pulido é um oficial veterano do Exército da Colômbia, reconhecido analista internacional de assuntos estratégicos, geopolítica e segurança nacional. Autor de mais de 40 livros sobre o conflito colombiano e terrorismo internacional, é também conferencista internacional e consultor especialista em defesa e liderança militar nos veículos de comunicação em espanhol mais relevantes do mundo.

      Tags

      #Geopolítica, #InteligênciaEstratégica, #Contrainteligência, #Japão, #Rússia, #Espionagem, #GuerraTecnológica, #SegurançaNacional, #TecnologiaMilitar, #LuisAlbertoVillamarinPulido

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